E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra; uma impaciencia da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os minímos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do ue nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que não me recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados.
Trecho 10 do livro de Ferando Pessoa - Livro do Desassossego
sábado, 24 de outubro de 2009
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
domingo, 4 de outubro de 2009
?
o vazio
o cheio transbordando
o escuro
o claro cegando
o alto
o baixo demais
o grito
o silêncio ensurdecedor
a dor intensa
porque as pessoas se suicidam?
o cheio transbordando
o escuro
o claro cegando
o alto
o baixo demais
o grito
o silêncio ensurdecedor
a dor intensa
porque as pessoas se suicidam?
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Você
Sinto a água fria caindo sobre minha cabeça
Sinto a brisa contra mim ao caminhar na praça
Sinto o calor do sol na minha pele
Sinto a dor dos esfarrapados
Sinto a solidão dos andarilhos
Sinto o medo da criança de rua
Sinto o vão entre a lucidez e a loucura dos poetas
Sinto o luto do revolucionário
Sinto a escuridão na tintas dos artistas
Sinto o longe e o perto
Sinto o ontem e o amanhã
Sinto a vida e a morte
Entretanto, não sinto o intocável.
Sinto a brisa contra mim ao caminhar na praça
Sinto o calor do sol na minha pele
Sinto a dor dos esfarrapados
Sinto a solidão dos andarilhos
Sinto o medo da criança de rua
Sinto o vão entre a lucidez e a loucura dos poetas
Sinto o luto do revolucionário
Sinto a escuridão na tintas dos artistas
Sinto o longe e o perto
Sinto o ontem e o amanhã
Sinto a vida e a morte
Entretanto, não sinto o intocável.
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