sábado, 24 de outubro de 2009

E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra; uma impaciencia da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os minímos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do ue nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que não me recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados.



Trecho 10 do livro de Ferando Pessoa - Livro do Desassossego

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ah, o Amor

Como diz o sábio Atenagoras


O Amor É FODA !

domingo, 4 de outubro de 2009

?

o vazio

o cheio transbordando

o escuro

o claro cegando

o alto

o baixo demais

o grito

o silêncio ensurdecedor

a dor intensa

porque as pessoas se suicidam?

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Você

Sinto a água fria caindo sobre minha cabeça
Sinto a brisa contra mim ao caminhar na praça
Sinto o calor do sol na minha pele


Sinto a dor dos esfarrapados
Sinto a solidão dos andarilhos
Sinto o medo da criança de rua

Sinto o vão entre a lucidez e a loucura dos poetas
Sinto o luto do revolucionário
Sinto a escuridão na tintas dos artistas

Sinto o longe e o perto
Sinto o ontem e o amanhã
Sinto a vida e a morte

Entretanto, não sinto o intocável.