sábado, 22 de setembro de 2012

A primeira vez que ela me viu com uma garrafa de vinho dentro da cestinha:
‘Boa noite, você está com seu documento?’ 
Eu já esperava. 
‘Estou sim.’ 
‘Nossa você aparenta ser bem mais nova. Que bom pra você!’ 

Passado uns vinte dias, a mesma coisa. 

...

As visitas ao mercado ficavam mais frequentes. Ela já sabia que poderia me vender bebida alcoólica. Só pedia o documento se o gerente estivesse por perto.

...

Hoje vou ao mercado algumas vezes por semana.
Ela não me pede mais o documento.
Meu tamanho é o mesmo, mas a cara é outra, o olhar é outro.
Ela me olha com carinho e eu posso ler no seu rosto que para ela não sou mais aquela mulher com cara de menina.
Parece que ela sabe que para se ter olhos tão vazios é preciso bem mais de dezoito anos.
Tenho a sensação de que ela me olha e vê apenas uma mulher triste.
Talvez por isso, essa noite ele me deu uma bala junto com a nota, mesmo não precisando de troco.

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