segunda-feira, 4 de abril de 2011

Bicho-Homem

Saí de casa atrasada como sempre para ir para a faculdade. Peguei o ônibus que me leva até o metrô, estava lotado, mas fui capaz de entrar. Cheguei à estação, ela estava cheia, esperei por um trem. Ele chegou, abriu as portas, entrei. Não tem assento vago. Posicionei-me de pé longe da porta. Não para evitar que a passagem dos demais usuários seja prejudicada, o fiz apenas para que estes me toquem menos. Peguei meu livro. Comecei a ler. Uma linha. Um parágrafo. Não entendi, voltei. Mesma linha, mesmo parágrafo. Não entendi. Alguns sons me atrapalhavam. Mesmo assim, continuei na tentativa de ler. Os sons continuavam a chamar minha atenção. Sons novos, desconhecidos. Desisti. Fechei o livro e me ative a procurar sua origem. Não encontrava. As pessoas apenas falavam. Aquele burburinho de sempre, tanta gente falando que você nem consegue distinguir as falas, escuta apenas um som homogêneo. Fiz então o que faço de costume, observei as pessoas. Procurei me concentrar em um grupo para conseguir decifrar as falas, passei a ouvir umas garotas que conversavam próximas a mim. Mas não entendia o que falavam. Talvez fossem estrangeiras, e eu não reconhecia a língua então procurei outro grupo para observar. Escolhi, comecei a escutá-los. Não os entendia também. Voltei minha atenção para outro lugar, um terceiro grupo e nada. Um leve desespero começou a tomar conta de mim. Não eram todos estrangeiros falando idiomas que eu desconhecia totalmente. Havia algo familiar nas conversas, eu conhecia aqueles sons. Meus olhos e ouvidos procuravam se entender na confusão, um não acreditava no outro. O que um via não representava o que o outro ouvia. Estava eu sonhando? Ou o que seria pior, estava eu alucinando? Parecia real. Era real. Os sons que saiam das bocas daquelas pessoas eu conhecia, eram de animais. Vários animais. Todos pareciam entender o que os outros falavam, grunhidos sendo respondidos com miados, coaxavam, latiam, mugiam. O trem parou na estação seguinte, as portas abriram-se, fecharam-se e tudo voltou ao normal. Empurravam-se, maldiziam-se, reclamavam da vida amorosa, do trabalho, contavam vantagem, carregavam suas compras, desejavam salários maiores. Todos tinham a mesma postura, a mesma conversa, todos, tanto as mãos calejadas que seguravam os corpos cansados pelas barras, quanto as mãos delicadas e bem cuidadas que seguravam as pastas de couro. Falavam a mesma língua, mas não havia entendimento, um falando por cima do outro, um falando mais alto que o outro, um impondo suas verdades aos outros. Uma Babel. Ninguém se olhava nos olhos, não havia sentimentos reais, tudo parecia implantado. Não havia o menor indício de que fossem Humanos de fato. Dei-me conta que observava aquilo que há muito venho chamando de Bicho-Homem. Desde então, uma dúvida vem me angustiando: falaria eu como eles caso tivesse tido a idéia de pronunciar alguma palavra?

Um comentário:

  1. Essas sensações me assaltam qnd pego o metrô tb. Penso se alguém pensa oq eu penso...como é a vida dessas pessoas, se elas tem tempo de terem essa reflexão, e aí inverto td: começo a pensar se é bom que eu tenha essas reflexões e se eu não deveria falar de coisas aleatórias tb.

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