domingo, 10 de abril de 2011

Meu corpo: minha história em seu contexto

Após derramar a última lágrima segui meu dia contente e segura de mim. Almocei, assisti um episódio de um seriado que gosto, li um texto, escrevi uma história, bebi vinho, ouvi música. Enfim cansei de estar no quarto e resolvi mudar de cômodo. Fui tomar banho.
Liguei o chuveiro bem pouquinho, com o chuveirinho aberto como sempre faço para que não caia água gelada em cima de mim. Fui regulando a temperatura e o jato da água. Entrei embaixo da água, estiquei meus braços e apoiei minhas mãos na parede. Abaixei a cabeça. Deixei a água cair. Fiquei parada. A água caia. Pensei na lágrima que havia rolado mais cedo. Estranhamente me senti bem. Em paz.
Lavei os cabelos com shampoo, esfreguei muito. Coloquei o condicionador, massageei e deixei relaxando. Peguei a bucha, com muito sabonete, e esfreguei o corpo até ficar totalmente branco de espuma. Sabonete com fragrância de limão, o banheiro ficou com um aroma confortante. Enxagüei a cabeça e o corpo. Passei nos cabelos o creme para hidratar, novamente massageei e deixei um tempo. Enquanto isso creme para evitar espinhas no rosto. Enxagüei os cabelos. Esfreguei novamente o corpo, agora com esfoliante, de corpo e de rosto. Sentia uma certa queimação na pele. Novamente me pus a sentir a água escorrer por meu corpo. Pensei na tatuagem que sempre quis fazer, uma rosa azul. Decidi. Enfim farei. Mas onde? Desliguei o chuveiro me enxuguei e voltei ao meu quarto.
Nua ainda, me olhei no espelho procurando um lugar para fixar a flor. Difícil decidir. Lembrei de uma tarefa que um dia uma professora me passou, em uma disciplina de antropologia. Falávamos sobre o corpo, e o exercício consistia em observar nossos copos nus prestando atenção às curvas, cores e formas, o que em nós era genético e o que tinha sido influenciado pela cultura social. Parece que o dia de realizar de fato essa atividade havia chegado. Estava eu ali escolhendo um lugar específico para marcar, colorir, registrar, enfim, alterar meu corpo. Sim, o corpo representa bem mais do que ossos, carne e pele. Ele conta uma história. Nesse caso a minha história.
A primeira coisa que percebi foi que meu corpo estava todo vermelho, meio q esfolado. Talvez por conta da força com que me lavei. Olhei minhas coxas, estavam finas, sem forma. Até minha panturrilha estava fina. Sempre tive pernas fortes. Tive, quando praticava esportes. Sim, tinha duas cinturas, como a professora havia comentado em aula. Uma era natural a outra foi feita por conta das roupas que usamos. E entre essas duas cinturas havia um “pneuzinho”, coisa da má alimentação, do sedentarismo, da cerveja com os amigos. Os pêlos dos braços e coxas estavam dourados, a química cuida disso com o tal “banho de lua”. Minha bunda, sempre avantajada, estava murcha, mole, com celulite e estrias. Os seios, caídos demais para quem tem 27 anos e sempre usou sutiã. As pintas vermelhas e marrons, grandes e pequenas, estavam em maior quantidade que no verão passado. Disse o médico que não há motivo para se preocupar com elas. Cabelos curtos e meio encaracolados já que não havia utilizado o secador ainda. No nariz, um piercing, de argola. Escuro, para diferenciá-lo dos demais, que em geral são prateados. Como se isso fosse possível. Logo eu, que tenho tanto medo de agulha, tive coragem de fazer isso. O que ninguém sabe é que esse foi um ato de castigo, de punição. Tudo bem, teve também uma pitadinha de vaidade, mas foi uma quantidade bem pequena. Olheiras. Dificilmente durmo bem, elas já me acompanham há algum tempo. Sobrancelhas por serem feitas, o que me incomoda muito, mas não ao ponto de ter paciência para fazê-las. Unhas dos pés curtas e encravadas no dedão. Já nas mãos, é diferente. Na direita, unhas mais compridas para tocar as cordas do violão, as da esquerda bem curtas para apertar as cordas do violão. Um pequeno calo na mão direita próximo ao dedo anelar, por conta de usar sempre um anel neste dedo. Uma cicatriz feita pro um estilete, lembrança das brincadeiras de criança na escola. Outras marcas nos joelhos, cotovelos e quadril provocadas por aventuras com patins e bicicleta. A cor do corpo agora já voltou ao normal, amarela. Preciso arrumar tempo para pegar uma corzinha na piscina.
Por fim, o exercício feito há cerca de dois anos se concretizou hoje. Esse corpo que voz fala conta a minha história, transborda de desejos, sonhos, ilusões, conflitos, de herança genética, herança cultural. O que ele conta, revela muito mais de mim do que minhas próprias palavras. Interpreto esse banho como uma tentativa de limpar a alma, de tirar a dor, a esperança de que de alguma forma pudesse esconder o vazio com a limpeza, arrancar a falta por meus poros, por isso a força ao esfregar-me. Recalcar a dor com outra dor, uma mais suportável. Quanto ao pedaço de corpo que será tatuado, nada acertado. Quanto aos outros pedaços, decidi que precisam ser melhor cuidados, esculpidos, coloridos, vestidos e penteados. Ou será que é o mundo lá fora decidiu isso por mim?

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